O Saber e o Enigma (Parte I)
Olavo de Carvalho, pairando muito acima da forma mentis brasileira, a qual, como ele mesmo dizia, costuma não ter muito mais que dois neurônios, um chamado “Contra” e outro “A Favor”, consegue mais uma vez o prodígio de…
I – A Essência do Simbolismo
II – Die Krisis der Astrologischen Wissenschaften
Nota prévia ou: tantae molis erat Brasiliam condere gentem!
Olavo de Carvalho, pairando muito acima da forma mentis brasileira, a qual, como ele mesmo dizia, costuma não ter muito mais que dois neurônios, um chamado “Contra” e outro “A Favor”, consegue mais uma vez o prodígio de publicar, agora como defunto autor, sem agradar a ninguém.
Feito torcidas futebolísticas exasperadas, os leitores de O Saber e o Enigma provavelmente se dividirão em duas arquibancadas opostas: de um lado do estádio guénonianos fanáticos que, como Alexandr Dugin, imputarão ao filósofo brasileiro, por suas duras críticas à “bússola infalível”, a alcunha de falso perenialista; do outro, uma insólita mistura de bandeiras, de tradicionalismo católico à voegelianismo água-com-açúcar, os gritos da turba vociferarão contra tudo aquilo que não vista bem o uniforme baby-look de sua tacanha ideologia anti-gnóstica. E assim Olavo, ao contrário de um Érick Jacquin, vai conquistando a façanha de decepcionar a todos os apetites de uma só vez, pois que sabe não ser a Filosofia matéria de preferência culinária, mas tão somente de paladar intelectual, o qual jamais pode se esquivar do trato direto com os sabores e os enigmas da existência, por mais picantes que eles sejam.
Enfim, como toda a sua obra, este livro não foi escrito para nenhuma espécie de proletariado cultural, mas para consciências individuais desprovidas de temor frente aos padrões de comportamento coletivo (aqueles mesmos que hoje discorrem pelo Instagram mudados em rótulos das mais variadas cores: “direitismo conservador”, “vida intelectual”, “alta cultura”, “quatro temperamentos”, etc.). Há que lembrar o seguinte: o imbecil coletivo não é fenômeno exclusivamente universitário, nem tampouco esquerdista, e os mesmos que o denunciam altivamente podem, do dia para noite, tornar-se seus mais novos representantes. Sem estar, portanto, razoavelmente aberto ao conhecimento de verdades que lhe escapem do atual horizonte de consciência, melhor é que não se compre este livro e nem que se leia minha resenha: tantae molis erat Brasiliam condere gentem!
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O Saber e o Enigma se organiza num estudo sobre simbolismo (partes I e II), que trata tanto da definição de símbolo quanto do desaparecimento da cosmovisão simbólica no Ocidente moderno; e em outras duas partes (III e IV) que investigam a natureza do conhecimento esotérico, na tentativa reciclar e superar a filosofia de René Guénon. Não bastasse o estilo extremamente livre de Olavo, o livro é ainda uma mistura de textos antigos, ensaios e transcrições de cursos, motivo pelo qual respeitarei menos a ordem das matérias do que a ordem das razões, com a finalidade de não resenhar senão aquilo que pareça indispensável ao “estudo dos esoterismos” (subtítulo do livro).
Além disso, como complemento a essa resenha publicarei sequencialmente outros dois escritos: uma tradução feita por mim do ensaio The Traditional Sciences de Seyyed Hossein Nasr; e um artigo autoral, resultado de trabalho acadêmico, que confronta duas noções do que seja a Astrologia (E. Cassirer vs W. Smith). A ideia é que com esses dois outros textos o leitor tenha em mãos exemplos mais vívidos e concretos de algumas das noções exploradas por Olavo.
I – A Essência do Simbolismo
Para dar conta do fenômeno total do simbolismo, Olavo antes desenvolve alguns conceitos centrais de sua filosofia, dos quais se destaca o de “círculo de latência”, que expressa sobretudo a realidade de incompletude da experiência humana, ponto de partida fundamental para a compreensão do símbolo.
Segundo essa concepção, o homem nada experimenta de forma completa, tudo o que percebe, vê e sente é sempre só uma parte de um todo que lhe transcende, um aspecto conhecido anunciando o desconhecido, uma patência que sugere uma latência. Quando estou diante de um prato de comida, por exemplo, sei que ele é muito mais do que aquilo que vejo, sei que posso observá-lo a partir de inumeráveis pontos de vista diferentes que, por sua vez, me darão novas perspectivas do prato, antes “invisíveis”. Mas, ao mesmo tempo em que percebo novos nuances ao contornar o objeto, perco de vista o que antes me era plenamente evidente. E mais: nenhuma de suas partes deixa de estar presente só porque eu não a vejo, elas só desaparecem para minha percepção imediata, embora continuem a fazer parte da estrutura ontológica do prato. Qualquer um que já tenha tentado fotografar seu jantar de domingo a fim de publicar um story no Instagram conhece a realidade angustiante de ter que escolher, dentre milhares de ângulos possíveis, o mais bonito para a foto. O mesmo se dá com tudo o mais, em verdade com o universo inteiro. A esse o conjunto de características latentes e invisíveis que todo objeto possui, as quais se me tornam aparentes conforme o movimento de minha “perspectiva rotatória”, a isso Olavo dá o nome círculo de latência.
Desse modo, segundo Olavo, já “podemos definir o símbolo como uma parte que anuncia totalidades latentes” (p. 55). E, sendo assim, se tudo o que nos rodeia se manifesta como um círculo de latência, como uma parte que anuncia um todo, isso equivale a dizer que o conhecimento humano é em si mesmo simbólico, pois tudo aquilo com que lidamos serão símbolos. E essa definição é suficientemente ampla para que abarque tanto o simbolismo natural – o mundo das correspondências cósmicas – quanto o simbolismo cultural, ou seja, a linguagem humana.
Porém a costumeira amplidão dos conceitos olavistas, se tem a virtude de clarear a nossa experiência com uma simplicidade e uma didática invejáveis, por vezes acaba tornando-os um pouco frouxos, exigindo uma diferenciação maior por parte do próprio leitor. O símbolo, como acima definido, pode soar impreciso quando inserido em contextos mais específicos. A relação simbólica entre a foto de um prato e o prato certamente não é do mesmo gênero que a existente entre o Sol e a Inteligência, ou entre a palavra carro e o objeto carro. Dentro da concepção olavista, a foto, o Sol e a palavra são igualmente símbolos, o que não está mal. Contudo é evidente que no primeiro caso há uma correspondência simbólica direta e imanente, por assim dizer, já que ela acontece entre uma parte e o todo do mesmo objeto; no segundo, o simbolismo é já indireto, análogo, metafórico, pois relaciona dois entes diferentes, que pertencem até a planos de realidade distintos (corpóreo e psicológico). Por fim, no terceiro caso, não parece haver qualquer semelhança, seja direta ou indireta, entre signo e objeto referido, apenas uma pura e simples convenção cultural: um dia alguém, por qualquer motivo que fosse, decidiu chamar os carros de carros, e assim foi.
A partir disso, vemos mais claramente que dentro dessa teoria há, como no Crátilo de Platão, lugar tanto para símbolos arbitrários quanto para símbolos universais. Se é inegável a existência de algo como um entrelaçamento simbólico de simpatias objetivamente existentes – unindo, por exemplo, “o outro ao mel, o mel ao leão, o leão ao rei, o rei ao Sol, o Sol ao anjo, o anjo ao Logos”[1] –, a capacidade humana de inventar e criar signos abstratos também não pode ser ignorada, e a prova disso são as línguas artificiais e os códigos secretos.
II. Die Krisis der Astrologischen Wissenschaften
As outras criaturas debruçadas Olhando a terra estão; porém ao homem Deus conferiu sublime rosto, Erguido, para o céu lhe deu que olhasse.” – Ovídio, Metamorfoses
Como, porém, achar sentido em meio a essa barafunda de símbolos cósmicos, onde tudo é análogo a tudo, nesse “sistema total das latências” (p. 42) a que chamamos universo? Para isso seria preciso encontrar uma estrutura simbólica que, por assim dizer, resumisse todas as outras e servisse de referência última à orientação do homem na existência. Olavo de Carvalho descobre essa estrutura fundamental no simbolismo astrológico, o qual é assim discernido como “o único sistema simbólico abrangente e plenamente universal” (p. 80).
Talvez não seja apenas uma anedota sacana e divertida a história de que Tales de Mileto, considerado um dos sete sábios da Grécia, tenha caído num buraco e morrido enquanto caminhava maravilhando-se com beleza do céu noturno. Platão, mais do que ninguém, parece ter levado isso muito a sério ao escrever a seguinte passagem do Timeu:
de todas as especulações que atualmente se pode fazer sobre o mundo, nenhuma teria sido possível se os homens não tivessem visto nem os astros, nem o Sol, nem o céu. […] Tendo estudado a fundo esses movimentos celestes, que participam da inteligência divina, poderemos então ordenar por eles nossos próprios pensamentos, os quais, deixados a si mesmos, não cessam de errar.” (Timeu, 47C)
Mas aqui, antes que o leitor confunda o filósofo brasileiro com um astrólogo do tipo João Bidu, distinguirei dois sentidos em que a palavra astrologia pode ser usada, dos quais o público em geral costuma conhecer apenas um. Entende-se primeiramente por astrologia certa técnica de prever acontecimentos terrestres, tomando como base suas supostas correlações com os movimentos celestes. Todavia, o entendimento dessas correlações está todo baseado em um sistema simbólico anterior, o qual pode ser estudado em si, como uma espécie de dicionário universal de símbolos, uma “matriz de intelecções” (Suzane K. Langer) a partir da qual é possível elaborar analogias descritivas para todos os campos da experiência humana. Daí é que vem o segundo sentido da palavra astrologia. Eu posso, por exemplo, descrever o temperamento agressivo de uma pessoa como marcial simplesmente porque a aparência do planeta Marte, em razão de sua vermelhidão, lembra a agressividade. E para isso não é preciso conhecer a posição do planeta no mapa astrológico da pessoa, nem muito menos acreditar em “influências astrais”. Aqui Marte não desempenha senão a função de símbolo, de uma patência visível que sugere certa latência invisível da psicologia humana. O interesse de Olavo pela astrologia advém, portanto, muito menos da primeira acepção do termo que da segunda, para a qual ele chegou até a desenvolver toda uma investigação científica a fim de transformá-la em uma disciplina de pleno rigor epistemológico, a astrocaracterologia.
Tão universal e abrangente pode ser essa estrutura simbólico-descritiva, com seus signos, casas e planetas, que Olavo chegou a afirmar que “todos os sistemas explicativos a respeito de qualquer coisa já estão de algum modo dados na astrologia” (p. 82). A título de exemplo, não deixa de ser interessante a sua demonstração de que as teorias tipológicas desenvolvidas por intelectuais da envergadura de Kurt Lewin, Lipot Szondi e Carl G. Jung não passam de “parcelas, recortes pequenos feitos dentro do sistema astrológico” (p. 83). E mais curioso ainda é ver hoje no Brasil, por exemplo, um astrólogo como Marcos Monteiro aplicando esse tipo de simbolismo à interpretação de algumas das maiores obras do Cinema e da Literatura mundial, com notável êxito.
Além do que, toda a cosmovisão originária do Ocidente cristão parece ter sido em grande medida influenciada pela astrologia, “em todas as catedrais se encontrava presente o zodíaco; havia nelas imagens tiradas diretamente do sistema astrológico, e a própria estrutura das catedrais e do pensamento escolástico partilhava desse mesmo simbolismo” (p. 87). Como na Divina Comédia, era o movimento do Sol e das outras estrelas que fornecia ao homem medieval seu senso de orientação existencial.
Porém, quando esse sistema, fundado no geocentrismo, for descreditado no início da Modernidade pelo heliocentrismo de Copérnico, a antiga ordem cosmológica também ruirá inevitavelmente.
O problema é que “descrever o sistema solar é uma coisa, e descrever a posição humana no cosmos é outra completamente diferente” (p. 85), como o comprova o fato de que praticamente todos os homens de gênio da nuova scienza não abandonaram as práticas astrológicas em nome de suas descobertas astronômicas – sim, Copérnico, Galileu e Kepler eram astrólogos![2]
Pouco importa que a descrição geocêntrica do céu não seja matematicamente tão precisa quanto a heliocêntrica, o que interessa à astrologia é simplesmente descrever o céu tal como ele aparece quando visto da Terra. Por mais que do ponto de vista matemático a Terra tenha sido expulsa do centro, a experiência sensível mais imediata do céu jamais deixa de ter um impacto fundamental na constituição da cosmovisão humana. Do mesmo modo que a descoberta do átomo não reduz um elefante ao seu aspecto químico, as leis da astrofísica não reduzem o céu à sua estrutura matemática. Afinal, não só o prato de comida do Instagram, mas, como já foi dito, todo o universo pode ser observado a partir de inumeráveis perspectivas que não sejam auto excludentes.
A essa tentativa inadequada de impugnar a antiga imagem do cosmos com base na nova descrição da mecânica celeste, tentativa, com efeito, baseada em uma confusão epistemológica elementar, corresponde na filosofia olavista o conceito de matematização da experiência. Ou seja, a segmentação da realidade em qualidades primárias, mensuráveis matematicamente e, por isso, identificadas com a realidade objetiva, e qualidades secundárias, como cores, cheiros, gostos, que seriam apenas subjetivas. As consequências desse mal-entendido filosófico podem ser rastreadas até o tão estúpido quanto atual jargão universitário “não entendo nada de Exatas porque sou de Humanas” e vice-versa. Partindo dessa falácia chega-se à conclusão de que, em relação ao funcionamento matemático e “objetivo” das órbitas planetárias, pouco importa a experiência “geocêntrica” e “subjetiva” que temos ao observar o céu. Nas palavras de Olavo:
a confusão do panorama visível do firmamento com o esquema mecânico dos movimentos planetários foi um dos grandes desastres intelectuais da história humana, do qual não nos refizemos até hoje. Ficamos assim desconectados do cosmos, a alma humana isolou-se, passando a viver solta num universo constituído apenas de forças físicas que não significam nada, não têm linguagem, ao mesmo tempo que tudo que em nossa vida parece indicar sentido, objetivo, meta, valor, recua para a esfera das meras invenções subjetivas.” (p. 103).
Na terminologia de Eric Voegelin, o que ocorre aí é um verdadeiro descarrilhamento cosmológico, que se dá quando símbolos antigos (nesse caso, astrológicos) são utilizados indevidamente, pois apartados de seu contexto experiencial, os quais passam, então, a ser tratados, e por isso mesmo falsamente criticados, como conceitos referentes a realidades outras (astronômicas) e, em grande medida, estranhas à experiência que lhes havia originado. Ou seja, o erro está em tomar as proposições astrológicas por asserções físico-matemáticas, em vez encará-las como meras analogias descritivas que pertencem a um sistema simbólico universal.
Partindo da perspectiva olavista, se é sobretudo o céu que nos ajuda a compreender “o drama humano inserido no drama cósmico e o drama cósmico inserido no drama humano” (p. 105), pode-se asseverar que as raízes mais profundas da famosa “crise do mundo moderno” encontram-se, em grande medida, na “crise das ciências astrológicas”.
(Continua no próximo episódio…)
[1] Olavo de Carvalho – A Dialética Simbólica, p. 29.
[2] Kocku von Stuckrad – História da Astrologia, p. 274
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